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Matriarcado: Além dos Estereótipos e da Nostalgia

  • Foto do escritor: yael barcesat
    yael barcesat
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

(Uma Investigação em Voz Alta)


No MatriHub, acreditamos que a busca por novos paradigmas exige profundidade e questionamento. Recentemente, em nossa "Investigação em Voz Alta", tivemos uma conversa transformadora com Yael Barcesat, que nos convidou a repensar o matriarcado para além das idealizações e dos jargões superficiais.


 

A Quimera Matriarcal: Construindo o Futuro, Não Revivendo o Passado

Esqueça a ideia de um matriarcado "puro" ou de uma volta a um passado idílico. Yael Barcesat nos apresentou o conceito de Matriarcado como Quimera: uma construção mestiça, feita de diversas partes e culturas. Como ela mesma afirmou:

 

"Não vamos buscar o 'puro' ou o 'original'. Precisamos construir algo mestiço, feito de partes de diferentes culturas."

 

Essa visão nos liberta da nostalgia e nos impulsiona a criar, a partir da complexidade do presente, novas formas de organização social.

 

Desconstruindo o "Cuidado" e o "Poder Feminino"

Quantas vezes associamos matriarcado a "mãe", "amor" e "cuidado"? Yael nos alertou que essas associações, embora bem-intencionadas, são frequentemente carregadas por nossa experiência em uma sociedade patriarcal. A ascensão de mulheres ao poder, por si só, não garante a transformação do sistema, pois as estruturas de poder ocidentais tendem a moldar quem as ocupa.

 

Um dos pontos mais impactantes foi a desmistificação da "mulherona" que resolve tudo. Yael foi categórica:

 

"Não confundam uma 'mulherona' que resolve tudo sozinha na família com matriarcado. Isso é, muitas vezes, o ápice da opressão feminina — a mulher que trabalha, limpa e cria tudo sozinha. Eu não quero ser essa mulher."

 

O verdadeiro matriarcado não é sobre a sobrecarga feminina, mas sobre o apoio coletivo e a redefinição do que significa prover e cuidar.

 

O Patriarcado como Estrutura, Não Escolha

Yael nos fez ver o patriarcado não como uma escolha individual, mas como uma estrutura profunda que organiza nossa vida, desde a vivenda nuclear até a criança privatizada e a nossa relação com o trabalho individualista. Essa estrutura, que ela chamou de heterossexualidade como regime político, molda nossas percepções e limita nossas possibilidades.

 

Abundância e o Coletivo: Um Novo Olhar para a Economia

Em contraste com o capitalismo, que gera desejos inesgotáveis e nos prende a ciclos de trabalho exaustivos, Yael nos convidou a olhar para a economia do dom e o coletivismo de sociedades matrilaterais. Nelas, a pressão por rendimento individual dá lugar a uma administração coletiva, onde a abundância é percebida de forma diferente, desvinculada do consumo incessante.

 

Práticas Proto-Matriarcais: Onde Começar?

Então, onde encontramos as sementes de um futuro matriarcal? Em práticas como a democracia consensual, que valoriza a tomada de decisões coletiva e horizontal. No entanto, essa jornada exige escolhas e, por vezes, abrir mão de certas autonomias individuais em prol do grupo.


A ajuda mútua no ecossistema econômico: tentar satisfazer as necessidades individuais com as produções coletivas do próprio grupo. Escolher o que e onde consumir, com as renúncias que isso acarreta. Preferir comprar de alguém conhecido em vez de uma marca renomada, consolidando um ecossistema de liquidez.


A transgressão de não confrontar nem se defender: desde muito pequenos, nos ensinam a nos defender, a responder a uma agressão com outra. Achamos que o oposto é fugir, mas existe outra forma de resolver o conflito, uma terceira opção, que consiste em ter resiliência suficiente para responder a uma agressão sem recorrer a outra agressão e sem oferecer a outra face. A ciência da gestão de conflitos ganha relevância quando vivemos em uma comunidade com um número limitado de pessoas. Quando não temos esse conhecimento, a primeira coisa que fazemos é terceirizar a administração da justiça, exigir que o aparato institucional exerça seu poder, e esse é o mundo em que vivemos. Quando uma pessoa se comporta de uma forma que não nos agrada, a quem pedimos para aplicar as punições? Se for o vizinho, ao administrador do condomínio; se for o colega de escola, ao diretor da escola; se essa pessoa for nosso parceiro, ao advogado, ao juiz e ao Estado, que são quem vai arbitrar e decidir. Em suma, terceirizamos constantemente a decisão para um pai ou uma mãe e consentimos em nos infantilizar. Esse é o preço que pagamos no sistema patriarcal ao entregar a justiça nas mãos de um terceiro, porque acreditamos na justiça e não em resolver o conflito por conta própria.


O prestígio: quando não há uma autoridade que fiscalize as relações afetivas, comerciais ou outras, elas são regidas pelo prestígio. Se alguém não paga, sua reputação se espalha rapidamente. Quando os conflitos são enfrentados diretamente, sem a intervenção de terceiros, precisamos aprender algumas coisas. A outra pessoa é um inimigo em potencial. Por isso, as sociedades matriarcais têm muitos protocolos e muita educação. Na sociedade patriarcal, não precisamos de tanta educação porque existe a polícia. Nos permitimos insultar alguém porque sabemos que há instituições que impedirão que a violência se agrave. Nas sociedades sem Estado, a diplomacia é uma questão de vida ou morte, e a reputação é a maior riqueza.

Convidamos você a se juntar a nós nessa investigação contínua. O MatriHub é o seu espaço para aprofundar, questionar e construir, juntos, os novos paradigmas que tanto buscamos. Venha fazer parte dessa Quimera em formação!

 

Com profundidade e rigor,

 

A Equipe MatriHub

 
 
 

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