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Estamos em contagem regressiva para a Turquia. Mas, não será uma viagem: será uma jornada para aprender a ver o mundo a partir dela.

Foto do escritor: Mara Silveira Carneiro
Mara Silveira Carneiro
10min
4 min de leitura

Há lugares que a gente visita. E há lugares que, de algum modo, visitam a gente de volta. A Turquia pertence a essa segunda categoria.


Ela não se entrega no primeiro olhar, nem cabe em uma única explicação. Não é só Oriente, não é só Ocidente. Não é só mesquita, nem só império. Não é só passado, nem só presente. É um território de muitas camadas, onde cada rua, pedra, mercado, ruína, oração e travessia parece guardar uma pergunta antiga: quantos mundos cabem dentro de um mesmo lugar?


Em outubro, o MatriHub e o DeRose Brooklin conduzem um grupo de 9 pessoas para lá. Mas podemos afirmar que não se trata de uma simples viagem para conhecer a Turquia. É uma jornada para aprender a ver o mundo a partir dela.



A história, ali, não parece encerrada. Ela continua. Continua em Istambul, antiga Constantinopla, antiga Bizâncio, cidade que já foi grega, bizantina, otomana, republicana, cristã, muçulmana, secular, cosmopolita. Continua em Ankara, capital moderna de uma república construída sobre os escombros de um império. Continua em Konya, na Capadócia, em Urfa, em Göbekli Tepe, onde a humanidade parece sussurrar algo anterior às nossas certezas. A Turquia não é apenas um destino histórico, mas uma região onde a história ainda está em movimento.


E esse “sentimento” é difícil de explicar. É preciso sentir. Talvez por isso tantos povos, em tantos tempos, tenham desejado estar ali. Quem quer ir a Istambul hoje não é a primeira pessoa a sentir esse chamado, nem será a última, a gente garante. Há alguma coisa naquele lugar que atravessa séculos. Pode ser a posição estratégica, esse encontro entre o Bósforo, o Mar Negro, o Mediterrâneo, a Ásia e a Europa. Pode ser a beleza quase indecente de uma cidade que se reflete na água. Pode ser o peso simbólico de ter sido capital de mundos diferentes. Pode ser apenas esse “borogodó” que alguns lugares têm e que nenhuma explicação esgota. O fato é que Istambul interessa há muito tempo a mercadores, imperadores, peregrinos, artistas, invasores, viajantes, sonhadores. Todo mundo quis passar por ali. Todo mundo quis entender o que havia ali.


Desaprender as simplificações


Para muitas pessoas, esta pode ser também uma primeira aproximação com um país laico mas de maioria muçulmana. E talvez seja importante que ela aconteça assim: não pela lente do medo, nem pela caricatura, nem por essa coleção de preconceitos que a gente nem sempre sabe quem colocou dentro da nossa cabeça. A Turquia nos convida a olhar de outro jeito. A perceber que o mundo islãmico não é uma ideia única, plana, distante ou homogênea. Ele é múltiplo, histórico, cotidiano, sofisticado, contraditório, espiritual, político, familiar, urbano. Entrar em uma mesquita, cobrir os cabelos por respeito ao espaço sagrado, tirar os sapatos, ouvir o chamado à oração e, depois, caminhar por uma rua cheia de cafés, música, arte, lojas, jovens, turistas, romãs, doces e conversas é também desaprender simplificações.


A Santa Sofia talvez seja uma das grandes imagens dessa experiência. Ela nasceu como catedral cristã, tornou-se mesquita, virou museu na república secular e voltou a ser mesquita em 2020, já no século XXI. É um monumento e uma síntese viva das disputas que atravessam o país, como fé, império, poder, memória, pertencimento, secularização, identidade. Em suas paredes, convivem mosaicos cristãos e inscrições islâmicas. Nada ali é simples. Nada ali se deixa capturar por uma frase rápida. Esse é um exemplo do que torna a Turquia tão fértil para uma jornada em grupo conosco, porque ela não permite que a gente permaneça confortável nas respostas prontas.


Olhar a Turquia a partir dos estudos matriarcais não significa buscar uma origem pura, um matriarcado perdido ou uma narrativa romântica sobre um passado perfeito. Essa armadilha não nos interessa. O que interessa é outra coisa: aprender a reconhecer vestígios, perguntas e formas de vida que escapam da lógica da dominação como destino inevitável. Em Çatalhöyük, na Anatólia, encontramos uma das experiências mais impressionantes da vida sedentária antiga, com indícios de organização comunitária e pesquisas recentes que apontam a persistência de linhagens femininas por muitas gerações. Em Göbekli Tepe, encontramos estruturas rituais tão antigas que deslocam a própria ideia de quando e como começamos a criar comunidade, cultura e mundo comum.


Nenhuma sociedade deve ser lida por dicotomias preguiçosas


A Turquia também nos obriga a olhar para o que acontece quando o feminino deixa de ser força viva e vira território de disputa. A história contemporânea do país mostra como diferentes projetos de nação, seculares ou religiosos, modernos ou conservadores, fizeram dos corpos das mulheres um campo simbólico. A mulher turca deveria ser moderna, mas virtuosa. Presente no mundo público, mas regulada. Educada, mas contida. Símbolo de progresso, mas guardiã da honra. O véu (não obrigatório em nenhum lugar do país, diga-se de passagem), a maternidade, a sexualidade, a participação política e o comportamento feminino se tornaram, muitas vezes, formas de discutir não apenas mulheres, mas a própria alma do país. A Turquia nos ensina que nenhuma sociedade deve ser lida por dicotomias preguiçosas: Oriente ou Ocidente, liberdade ou tradição, religião ou modernidade, emancipação ou controle. A vida real quase sempre acontece no meio dessas palavras.


Por isso, a nossa viagem não começa no aeroporto. Ela começa antes, no preparo do olhar. Começa quando o grupo se reúne para estudar, perguntar, escutar e deslocar nossas certezas. E começa quando entendemos que viajar pode ser mais do que consumir paisagens, um modo de investigar o mundo. O que uma cidade revela sobre convivência entre diferenças? O que as rotas antigas ensinam sobre troca, abundância e interdependência? O que uma sociedade escolhe lembrar quando conta sua própria história? O que ela apaga? O que permanece no corpo depois que voltamos para casa?


A Turquia interessa a tantos povos porque guarda a promessa de que mundos diferentes podem se encontrar, se ferir, se misturar, resistir e, ainda assim, produzir beleza. Nós vamos até lá não para encontrar uma resposta sobre a Turquia. Vamos para aprender a sustentar perguntas melhores sobre nós. Acompanhe a jornada conosco.

 
 
 

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